METACRITIC: “BASS PERSUADES”, DÉCIMO ÁLBUM DE ESTÚDIO DE MILEY, TEM NOTA 63

Atualizado: há 4 horas
O álbum “Bass Persuades” de Miley, que foi lançado no dia 18 de setembro, finalmente fechou sua primeira rodada de notas para avaliação no Metacritic - termômetro da música que calcula a nota de discos com a média dos sites especializados mais relevantes. BP demorou alguns dias apenas com uma resenha (a da Slant) e nota 50, pois desta vez a equipe e gravadora de Miley não enviaram o álbum com antecedência para análises. Passado o primeiro fim de semana, as notas começaram a surgir e agora já temos um panorama da recepção de alguns dos principais veículos de mídia e a média 63 no álbum. Confira as resenhas completas neste post único:
SLANT MAGAZINE: NOTA 50 (18/09) - Crítica de ‘Bass Persuades’, de Miley Cyrus: um pop que não convence
As mudanças abruptas de gênero e tom do álbum impedem que o ouvinte se acomode.
“A música nos domina”, escreveu Miley Cyrus no anúncio de seu décimo álbum de estúdio, *Bass Persuades*. Por mais verdadeira (e vaga) que essa afirmação possa ser, nem ela nem a música em si soam muito convincentes. Na faixa-título de abertura, ela assume o papel de uma versão modernizada e glamourizada do Flautista de Hamelin, ao mesmo tempo em que convida os ouvintes para a pista de dança e os repreende por manterem os “olhos grudados na tela do celular”. O que, de outra forma, poderia soar como um desabafo inútil contra o mundo é equilibrado por claras homenagens sonoras a Britney, Madonna e Janet, resultando em um hino *dance-pop* que põe o corpo para mexer, mas carece da originalidade arrebatadora das melhores músicas de Miley.
Distinção estética e coesão temática são os ingredientes que faltam em *Bass Persuades*, já que as mudanças abruptas de gênero e tom ao longo do álbum impedem que o ouvinte se acomode e compreenda de fato qual seria a visão de Miley. A sonoridade *industrial noise-eletrônica* de "Different Religion" — que se beneficia dos sintetizadores agressivos e da programação afiada da banda de rock Model/Actriz, do Brooklyn — é imediatamente seguida pela balada *pop-rock* "Let’s Get Married", animada, porém pouco inspirada, e pela sentimentalista "Orbit".
Com apenas 10 faixas (uma das quais é um remix de “Bass Persuades”), torna-se difícil ignorar as escolhas mais intrigantes — ou desconcertantes — do álbum. “Snow” é uma canção de amor bastante banal, que parece ter sido concebida por algoritmo para não pertencer a gênero algum; já “Neon Signs” é um dueto lânguido com Andrew Wyatt, cujo timbre anasalado acaba ofuscado pelo contralto intenso e sedutor de Miley, e cujas falas sussurradas — em um tom de intimidade de quarto — oferecem todo o erotismo de uma parada em um motel de beira de estrada decadente: “Algumas pessoas dizem que sou estranho, mas outras acham que sou na medida certa”.
Há momentos em que o talento de Miley ganha destaque absoluto. A batida pulsante e os sintetizadores que lembram o zumbido de cigarras em “Aftermath” impulsionam sua performance mais enérgica no álbum, resultando em uma explosão de euforia avassaladora — e necessária. E quando Miley sobe a escala melódica com naturalidade, cantando com um toque de *twang* country a frase “Vou voltar meu rosto para o céu” sobre o som de cordas que parecem gemer na faixa country-pop “Redlights”, sua voz carrega aquele tipo de autoridade emocional capaz de nos fazer flutuar. São momentos como esses que tornam ainda mais intrigante a decisão de Miley de se voltar para um pop de andamento moderado — com produção e composição a cargo, principalmente, de Kid Harpoon e Mike Pollack.
MUSIC OMH: NOTA 60 (20/09) - Miley Cyrus – Bass Persuades
Marcando seu décimo álbum sob um novo nome artístico, a mais recente reinvenção da ex-estrela da Disney é tão intrigante quanto confusa.
Adotar um monônimo como artista é, sem dúvida, uma decisão ousada. Para alguns, funciona como acionar um interruptor, como aconteceu com Kylie Minogue. No caso de Marina & The Diamonds, apresentar-se simplesmente como MARINA consolidou sua independência e revelou um lado mais humano. No entanto, quando Miley Cyrus postou uma foto no Instagram com um filtro avermelhado e a legenda incisiva "MILEY", os fãs naturalmente se perguntaram o que motivou a mudança.
Seu décimo álbum de estúdio, que leva o nome do single principal, *Bass Persuades*, pode (ou não) responder indiretamente a essa pergunta. Após o sucesso estrondoso de "Flowers", muitas estrelas pop teriam optado por capitalizar em cima de um grande hit; Cyrus, por outro lado, escolheu um nono álbum experimental, descrito por ela como sua própria versão de *The Wall*, do Pink Floyd. Felizmente, seu trabalho mais recente mantém essa postura intransigente.
A maior surpresa é "Different Religion", facilmente a música mais interessante que ela lançou em anos. Começando com Cyrus rosnando "I’ve got my own god" (Tenho meu próprio deus), a faixa evolui para uma sonoridade densa e caótica de *industrial grunge* que, de forma intrigante, equilibra-se numa linha tênue entre a Britney Spears da era *Blackout* e o Nine Inch Nails. Com a participação da banda Model/Actriz, a música se destaca como um ponto alto inegável que desbrava territórios inesperados.
Além dessa mudança de direção marcante, o álbum apresenta uma lista de faixas bem mais enxuta. Com apenas nove músicas, não há espaço para excessos. Em alguns momentos, a obra remete ao otimismo de *Endless Summer Vacation* e à euforia do amor arrebatador — algo especialmente evidente em "Snow". Contudo, apesar da atmosfera gélida e do canto assombrado de "Together we both fall" (Juntos, nós dois caímos), a faixa não desperta o mesmo deslumbramento que as anteriores.
Uma linha de guitarra psicodélica em espiral complementa "Let’s Get Married", uma homenagem ao noivo de Miley, Maxx Morando, às vésperas do casamento. Esse é, sem dúvida, o momento mais humano do álbum. Evocando o melhor de seu disco de 2020, *Plastic Hearts*, a canção troca a pesada carga emocional pela esperança.
No entanto, por mais ambicioso que *Bass Persuades* possa ser, ele também pode ser frustrante. Embora baladas como "Orbit" e "Let’s Get Married" tenham seu apelo, fica um desejo latente por mais faixas que revelem seu lado mais visceral. O grande trunfo de *Different Religion* é ter marcado sua reinvenção com uma afirmação contundente. No teaser do álbum, Miley sugeriu fortemente uma nova direção voltada ao rock, tocando baixo durante toda a prévia da música. Fica a pergunta: que outras canções acabaram descartadas na edição final que poderiam ter tornado essa reinvenção muito mais empolgante?
Felizmente, "Innocent Ways" foi uma das que entraram no corte final. Enquanto a atmosfera solar de "Flowers" era acessível e leve, a sonoridade de electropop carregada de guitarras — na mesma linha da Lady Gaga da era *Born This Way* — soa muito mais ousada. Esse estilo parece ser exatamente o tom que deveria ter predominado em *Bass Persuades*. Ironicamente, a faixa foi produzida por Kid Harpoon, que emprestou seu talento a "Flowers" e a grande parte da discografia de Harry Styles.
Tanto pelo título do disco quanto pela estética visual, Cyrus sinalizou claramente que sua antiga persona havia ficado para trás. Isso marca o tipo de reinício que ela já vivenciou anteriormente — basta pensar em *Bangerz* e no provocativo *Can’t Be Tamed*. Desta vez, porém, a mudança pareceu mais intencional e madura, sugerindo uma guinada genuinamente surpreendente. Em vez disso, metade do álbum perde o fôlego sob o peso de faixas excessivamente mornas. Para cada canção confessional, ousada e repleta de efeitos eletrônicos como "Aftermath", surge outra, como "REDLIGHTS", que interrompe todo o ritmo do disco. No fim das contas, é inegável que *Bass Persuades* é um bom álbum, mas, com maior consistência, poderia ter sido o melhor de sua carreira até agora.
VARIETY: NOTA 65 (21/09) - "Bass Persuades", de Miley, é bonito e razoável, mas surpreendentemente carente de graves... ou de poder de persuasão: Crítica do álbum
Agora sabemos que a faixa-título e primeiro single de "Bass Persuades", de Miley Cyrus, foi um clássico caso de despiste. Lançada duas semanas e meia antes do álbum, a música prometia um décimo disco repleto de *bangers* (ou *banzers*, como preferir), dando uma leve bronca nos jovens por não demonstrarem interesse suficiente na pista de dança — qual é o problema da garotada de hoje? — e tentando atraí-los de volta a ela com uma combinação de ritmos pulsantes e instruções faladas, livremente inspiradas nos repertórios de Madonna e Lady Gaga. Para o bem ou para o mal, parecia que Cyrus deixaria de lado algumas de suas excentricidades estilísticas — assim como seu sobrenome — para entregar um álbum feito puramente para as pistas.
Mas essa era a nossa suposição, não a dela — ainda que usar o título do single para o projeto inteiro parecesse criar uma expectativa que o álbum completo não chega a cumprir. O novo disco, lançado na sexta-feira sem prévias para a imprensa, abre com “Bass Persuades”, seguida por uma segunda faixa de sonoridade levemente parecida, “Different Religion”; no entanto, o álbum raramente revisita esse estilo até encerrar seus 38 minutos com a décima faixa: um remix acelerado e desnecessário da música-título. O conteúdo intermediário inclui um número surpreendente de baladas românticas e algumas faixas que destoam do restante. É um trabalho eclético, mas não no nível de *Endless Summer Vacation*. Uma coisa que ninguém vai lembrar sobre ele é o excesso de graves.
E quanto a *Persuasion*? O álbum também deixa um pouco a desejar nesse aspecto: é agradável, razoável e, ocasionalmente, cativante, mas soa superficial; traz ganchos que nunca chegam realmente ao auge que se espera de uma grande música pop e deixa uma leve sensação de "é só isso?" ao final de sua duração relativamente curta. Não será o álbum favorito de ninguém na discografia de Miley, nem o menos apreciado. A impressão geral é a de uma obra que funciona bem por si só, mas que parece um tanto inacabada em quase todos os sentidos — como se a estrela tivesse pressa em entregar material à sua nova gravadora —, embora as letras (focadas principalmente em paixão e algumas até muito boas) certamente reflitam o momento que a cantora vive em sua vida pessoal. No entanto, para quem admirou o álbum anterior, *Something Beautiful* (lançado há pouco mais de um ano) — justamente por adotar uma estética retrô interessante e manter-se fiel a ela —, *Bass Persuades* parece carecer de um eixo central; soa mais como um projeto de transição, feito apenas para preencher o espaço entre declarações musicais mais ousadas, do que como uma afirmação artística definitiva.
A mensagem central do álbum parece ser a de que as coisas vão muito bem — ou melhor, extremamente bem — com seu noivo, Maxx Morando, que colaborou como compositor e produtor em todas as faixas, exceto duas. Ouvir Miley nesse estado de total encantamento amoroso gera resultados mistos. A terceira faixa, “Let’s Get Married”, representa uma mudança brusca de direção em relação às duas músicas mais agitadas que a antecedem, enveredando por uma sonoridade *easy listening* e *Adult Contemporary* repleta de sintetizadores; o resultado não compensa o choque dessa transição repentina. Embora a música provavelmente vá tocar em alguns casamentos futuros, é bem possível que muitos convidados fiquem ansiosos para pular logo para a parte dos votos.
Felizmente, aquele interlúdio meloso é um ponto baixo do qual o álbum se recupera rapidamente. A faixa seguinte, “Orbit”, é igualmente romântica, mas figura entre as melhores da coleção; trata-se de uma *power ballad* — ou apenas uma balada, sem tanta ênfase na potência vocal — que emprega sacadas inteligentes e jogos de palavras em torno do que poderia ser uma metáfora batida. Seu parceiro é o centro de seu sistema solar: “Coloque uma bolinha de gude no chão / Quando você entrar no quarto, ela rolará em sua direção” — uma imagem que resulta em uma declaração de amor encantadora.
Os devaneios românticos às vezes dão lugar a momentos mais bobos e ousados. “Neon Signs” não é uma música particularmente memorável por si só, mas as interações faladas — cada vez mais ridículas — entre Cyrus e seu parceiro de dueto, Andrew Wyatt, podem arrancar um sorriso do ouvinte antes que tudo termine em sussurros apaixonados. Ou talvez causem certo constrangimento, já que Wyatt murmura, ao final, entre os suspiros sensuais da dupla: “Algumas pessoas acham que sou estranho, mas outras acham que sou na medida certa”. Um álbum tão repleto de canções de amor diretas e simples ganha com esse momento de troca de carícias verbais um tanto desajeitadas.
A melhor música do álbum, “Aftermath”, surge na metade do disco. Sendo a única faixa que realmente ganha intensidade e paixão, ela teria sido o clímax ideal para a obra, não fosse por um problema: é a única canção triste do álbum e, portanto, encerraria de forma estranha uma coleção que, no geral, é alegre. Ainda assim, é bom saber que Miley consegue tirar um momento filosófico para refletir sobre o “Fim de Todas as Coisas” — incluindo, inerentemente, seu relacionamento — como uma espécie de interlúdio em um álbum caracterizado, em sua maior parte, por um otimismo romântico.
Há outra faixa de tom mais sombrio no álbum, que certamente será a mais comentada: “Innocent Ways”, na qual Cyrus canta longamente sobre um irmão ou irmã — alguém que muitos ouvintes presumirão ser Noah. “Quero algo melhor para a minha irmã / Ela só me liga tarde da noite, quando está chapada / A cabeça dela está girando / Oito noites seguidas / Ela tem passado por uma crise / Ela fica igualzinha a mim quando chora.” É preciso haver algum tipo de crise para gerar tensão dramática em um álbum que carece disso; portanto, se ela precisa tomar emprestada a angústia de uma familiar, que assim seja. Curiosamente, Miley parece guardar certo ressentimento da irmã por usar uma camiseta do Blondie sem realmente ouvir as músicas da banda. Mais intrigante ainda é quando ela canta: “As consequências da fama / Assumir o sobrenome de solteira da minha mãe”, sugerindo uma família que reflete bastante sobre sobrenomes e sobre como adotá-los ou descartá-los. Além de ser liricamente fascinante, “Innocent Ways” é também a faixa mais intensa e agitada do álbum — e resolver questões profundas entre irmãs em meio ao som vibrante da balada é uma ideia que apoiamos totalmente.
“Snow” encerra o álbum com um tom mais doce — ainda que pareça algo relativamente irrelevante — e deveria ser a faixa final do disco; no entanto, Miley claramente achou que nove músicas não bastavam e arredondou para 10 com um remix da faixa-título que ninguém pediu. Terminar com o tipo mais óbvio de "enchimento" não pega muito bem, embora eu — que não sou fã da versão original — tenha conseguido apreciar um pouco mais essa versão acelerada (estilo anfetamina) da música.
Talvez o álbum pareça tão curto porque Miley agendou shows no Hollywood Bowl com essa temática; seriam apresentações extremamente breves se ela se limitasse principalmente a essas nove faixas — o que, presumivelmente, não acontecerá. Não parece que “Bass Persuades” será um álbum marcante para os fãs de Cyrus; seus seguidores são conhecidos por terem opiniões divididas sobre seus discos — a ponto de um álbum como “Something Beautiful” gerar comentários classificando-o tanto como um de seus melhores quanto como um de seus piores. Ainda assim, não seria surpresa se a base de fãs fosse unânime em situar este novo trabalho em algum lugar intermediário em qualquer ranking. “Nada mal” provavelmente não é a reação desejada quando alguém recomeça uma fase de sua carreira. Mas é preciso reconhecer uma coisa: ela nunca faz o mesmo álbum duas vezes. Portanto, se este disco não chega a ser impressionante nem decepcionante — ficando apenas na média —, isso não diminuirá a expectativa pelo que ela apresentará na próxima fase de sua trajetória. Mas é preciso reconhecer uma coisa sobre ela: é alguém que nunca faz o mesmo álbum duas vezes. Portanto, se este disco não chega a impressionar nem a decepcionar — situando-se apenas em um nível mediano —, isso não diminui a expectativa para saber qual será a sua próxima fase quando chegar a "Miley Mach 11".
CONSEQUENCE: NOTA 67 (21/09) - "Bass Persuades" traz Miley de volta à pista de dança, ainda que não exatamente no ritmo: Crítica
O álbum é divertido, mas seria ainda mais se tivesse letras melhores.
Miley quer saber por que as pessoas não estão mais dançando. Em *Bass Persuades* — seu décimo álbum e o primeiro lançado apenas com seu primeiro nome —, ela defende de forma convincente a pista de dança, mesmo quando a letra não acompanha o ritmo.
O trabalho dá continuidade à sonoridade madura que ela vem construindo há anos. Desde que deixou para trás o universo de Hannah Montana, Miley — hoje com 33 anos — sempre se mostrou uma colaboradora destemida e leal: aventurou-se por territórios desconhecidos em *Bangerz* (2013), um projeto de hip-hop/pop que, embora gerasse certo constrangimento, era divertido e rendeu o megasucesso "Wrecking Ball"; e experimentou sonoridades psicodélicas em *Miley Cyrus & Her Dead Petz* (2015), ao lado de Wayne Coyne, do The Flaming Lips. No entanto, foi em *Endless Summer Vacation* (2023) — que trouxe o sucesso etéreo "Flowers" — e em *Something Beautiful*, do ano passado, que ela encontrou o equilíbrio ideal, fundindo suas diversas influências em uma sonoridade madura. Aqui, sua voz não é levada ao limite como em *Something Beautiful*, mas a performance vocal permanece sólida do início ao fim.
O álbum abre sua faixa-título com uma sequência de acordes de sintetizador sombrios. Um verso falado de introdução remete a Lady Gaga (a música toda tem uma pegada bem característica do início da carreira dela), criando uma atmosfera de boate distópica — a galera não está dançando, droga! O cenário traçado é interessante, embora escolhas líricas ocasionalmente estranhas acabem quebrando o clima:
“As pastagens dão lugar ao asfalto, pois os cavalos se foram
Esquecendo que existe um mundo enquanto este disco toca
Fantasmas foram para as Bermudas, pois não há ninguém para assombrar
Doces batizados com fentanil que ninguém quer”
Após a primeira estrofe, “Bass Persuades” entra em um refrão cativante — com um gancho excelente — seguido por uma segunda estrofe ainda melhor: “Olhos grudados na tela do telefone / Mas você perdeu o sucesso sem a MTV”. Embora o trecho sobre “pavimentar pastos porque os cavalos se foram” remeta a “Big Yellow Taxi”, de Joni Mitchell (que fala sobre pavimentar o paraíso para construir um estacionamento), ele não condiz com a ideia de que os jovens não querem mais festejar; já a menção a “doces batizados com fentanil que ninguém quer” parece um atalho fácil para conferir um tom mais ácido ao fazer referência a... o quê, exatamente? Indústrias farmacêuticas traficantes de drogas? Aquelas lendas urbanas de Halloween típicas de correntes de e-mail da geração *baby boomer*? O que ela está tentando dizer, afinal?
Em seguida, “Different Religion” (com participação de Model/Actriz) começa com uma batida pesada e distorcida (*drop*). A sonoridade é envolvente, com uma pegada industrial à la Nine Inch Nails, mas a faixa sofre com uma analogia religiosa que não convence. Na estrofe inicial, ela deixa claro que o deus de sua nova religião é um amante, mas versos como “Tenho meu próprio deus / Ele dirige um carro veloz” e “Tenho meu próprio deus / Meu deus é um garoto gato” parecem destoar de sua maturidade recém-adquirida e, pior ainda, não esclarecem nada.
Ao lidar com referências como “Personal Jesus”, do Depeche Mode, e “Like a Prayer”, de Madonna, a aposta é alta, já que os compositores originais tentaram destilar sentimentos complexos sobre religião em músicas que, na verdade, tratam de outros assuntos. Aqui, porém, a letra fala apenas de um rapaz atraente. A roupagem religiosa não acrescenta nada; pelo contrário, apenas distrai. A situação melhora um pouco com a entrada de Cole Haden, vocalista da banda de dance-punk Model/Actriz. A voz dele combina bem com a de Miley, e seus versos que associam um carro a um amante adicionam uma camada extra de sensualidade a uma música cujas letras, de outra forma, seriam bastante superficiais.
Em seguida, temos “Let’s Get Married”. Alguns podem achar que a transição para a sonoridade suave e etérea dessa faixa destoa bruscamente das duas músicas anteriores, mais voltadas para as pistas de dança; por outro lado, pode parecer uma saída da atmosfera pesada da balada em direção à luz — uma fuga bem-vinda. É também uma oportunidade para Miley falar abertamente sobre o amor que encontrou com seu noivo, Maxx Morando, com quem colaborou nos álbuns *Endless Summer Vacation* (2023) e *Something Beautiful* (lançado no ano passado).
“Let’s Get Married” é uma das poucas faixas que não contam com a participação de Morando na composição, embora ele apareça no videoclipe, gravado em um dos locais favoritos de Miley: o Chateau Marmont. E, coincidência ou não, as músicas nas quais ele trabalhou estão entre as melhores do álbum. Em vez dele, ela recorreu a Kid Harpoon — figura de grande destaque neste disco — e a outros compositores de sua confiança, como Michael Pollack.
Kid Harpoon trabalhou em “Flowers”, a música que rendeu a ela seus primeiros prêmios Grammy. Com sua introdução de guitarra brilhante, uma linha de baixo grave e marcante e uma instrumentação envolvente e onírica, “Let’s Get Married” tem potencial para alcançar o mesmo patamar de “Flowers”. “Flowers”, no entanto, evocava imagens mais poderosas. “Let’s Get Married” é literal demais, com versos como:
“Vamos nos casar hoje à noite
Vamos nos casar
Tenho visões de branco
Vamos nos casar
Vamos transformar o resto de nossas vidas em férias
A qualquer hora, em qualquer lugar, podemos fugir”
Nem toda boa música pop precisa apostar em um lirismo profundo. A própria Miley comenta isso sobre “Let’s Get Married” em uma conversa com Zane Lowe, da Apple Music. No entanto, simplicidade e imagens específicas não são mutuamente exclusivas. Na mesma entrevista, Miley falou sobre a paz que encontrou na vida doméstica e na rotina, como cuidar de seus animais em casa pela manhã. Um verso específico extraído de sua vida pessoal transformaria “Let’s Get Married” em uma grande canção, mantendo, ao mesmo tempo, a universalidade de seu tema. A bela balada “Orbit” também se beneficiaria disso, embora sua melodia envolvente e a performance vocal dela — algumas das melhores do álbum — já evoquem uma sensação de saudade.
“Bass Persuades” ganha força em sua segunda metade com um quarteto de músicas impactantes — das quais apenas uma é voltada para as pistas de dança. “Aftermath” finalmente traz uma letra que faz jus ao potencial da música (“Sinto falta do futuro como de um rosto que esqueci / Como as minhocas sentem falta da terra no fundo de um vaso”). Sua batida incessante, em contraste com a letra que lamenta um amor perdido, resulta em uma faixa dançante mais satisfatória do que a própria “Bass Persuades”.
A sonoridade envolvente de “REDLIGHTS”, que remete aos filmes de *spaghetti western*, destaca com perfeição a voz de Miley — com seus traços de música country — e serve como uma ode ao amor, apresentando a especificidade que falta a “Let’s Get Married”.
“Innocent Ways” é talvez a música mais profunda do álbum em termos temáticos, abordando a relação complexa entre irmãs (Noah Cyrus, irmã de Miley, também tem carreira de cantora; sua irmã Brandi é atriz). Com a voz envolta em uma batida sinistra, Miley canta sobre uma irmã que lhe liga “apenas tarde da noite, quando está chapada” e que “fica igualzinha a mim, é, quando chora”. A canção trata das pressões da fama e da família — algo que Miley certamente conhece muito bem.
“Snow” traz uma batida envolvente e vocais suaves que evoluem para um refrão cheio de *groove*, com sussurros e suspiros vocais interessantes. Assim como “REDLIGHTS”, a faixa tem um toque de *country*. Apesar do título, é a música perfeita para dirigir por uma estrada deserta. Ela mistura amor e saudade, e a letra da segunda estrofe, em particular, oferece um vislumbre da felicidade que ela encontrou no amor: “Eu sei que já vi de tudo / Com você, eu veria tudo de novo e de novo”.
“Bass Persuades” é uma faixa agradável que começa a resgatar aquela atitude ousada que tanto amamos em Miley, mesmo que não represente uma mudança drástica em relação a *Something Beautiful*. À medida que ela retoma as apresentações ao vivo — seus shows no Hollywood Bowl neste outono marcam suas primeiras apresentações completas nos EUA desde 2021 —, é difícil definir exatamente que tipo de estrela pop ela está se tornando.
O álbum se encerra retomando “Bass Persuades” — mais rápida, mais pesada, com um baixo pulsante e uma energia mais frenética, ainda questionando: “Se não estamos em movimento, baby, baby, por que estamos aqui?”. É uma pergunta pertinente. Suas letras ainda não responderam a isso.
ROLLING STONE: NOTA 70 (21/09) - RESENHA DE ÁLBUM
MILEY CYRUS ENCONTRA SATISFAÇÃO EM NOVAS MOTIVAÇÕES EM ‘BASS PERSUADES’
Hits explosivos parecem não motivá-la mais — pelo menos, não tanto quanto o amor que a espera em casa ao fim da noite.
Na véspera do lançamento de seu novo álbum, *Bass Persuades*, Miley Cyrus disse a Zane Lowe, da Apple Music, que a vida na estrada representa uma grande ameaça à sua sobriedade, a qual depende fortemente de rotinas consistentes e de um ambiente familiar. Em vez de correr riscos, ela prefere ficar em um só lugar e fazer com que o público vá até ela — como acontecerá nos dois shows que ela fará no Hollywood Bowl. "É perfeito, porque as pessoas gostam de me ver apresentar e eu gosto de dormir na minha cama que parece um marshmallow", disse Cyrus. "Assim, nós dois ficamos felizes." Bem, mais ou menos — mas não exatamente.
Enquanto os fãs dramatizavam e analisavam a fundo a ideia de que "as pessoas virão até mim", houve outra parte da entrevista que passou despercebida. Pode não ter parecido tão significativa no contexto original, mas é um pequeno detalhe que parece crucial para compreender *Bass Persuades* e a artista que o criou.
Em certo momento, Cyrus reflete sobre o luto, a ansiedade e uma experiência de quase morte ocorrida em 2022 — e então menciona uma lembrança específica: a apresentação da música "Fly on the Wall" para um público de 250 mil pessoas. "Comecei a ter reflexões existenciais sobre quão pequena eu sou e a pensar sobre o tempo", disse ela. "E tudo isso enquanto eu cantava 'Fly on the Wall'." Ela brincou sobre não querer acabar com a energia do show com seus questionamentos existenciais durante as músicas antigas e de grande sucesso que o público fora ouvir. Cyrus apresentou muitas dessas canções antigas e populares naquela apresentação de 2022. Elas superavam em muito as músicas selecionadas de seu álbum da época, *Plastic Hearts*, que continua sendo seu disco mais sólido.
Cyrus não sobe aos palcos com frequência e já faz muito tempo que não mantém uma presença constante neles. Quando se apresenta, o formato de "grandes sucessos" funciona bem para ela, servindo para compensar essa escassez. No entanto, isso não parece sustentável. Ao ouvir *Bass Persuades*, é difícil entender como ela pode evoluir nessas circunstâncias.
As pessoas viajarão para ouvir “See You Again” e “We Can’t Stop”. Mas, aos 33 anos, Cyrus está muito distante de quem ela era quando criou essas músicas. Ao tentar resgatar alguma versão do que impulsionou a criação delas, o resultado é “Bass Persuades”, um single de trabalho divagante e com pouco a dizer. Ela repete 19 vezes que “a garotada não quer dançar”. Sua voz, geralmente uma força que exige atenção, soa desconectada da produção pulsante. Cyrus encerra o álbum com um remix industrial de “Bass Persuades”, feito pela banda de noise rock Model/Actriz, o que apenas a empurra ainda mais para o segundo plano. Felizmente, a maioria das oito faixas situadas entre essas duas se esforça mais para criar uma conexão.
"Bass Persuades" não está interessada em dança, mas sim totalmente voltada para a devoção. Cyrus não está nem aí para o que a garotada anda fazendo; ela quer falar sobre o seu homem. A banda Model/Actriz se junta a Cyrus mais uma vez em "Different Religion", uma canção de *gothic pop* sobre um homem que dirige um carro veloz e faz muito barulho. "Eu tenho o meu próprio deus", canta Cyrus. "Meu deus é um cara gato." Se o amor dela for parecido com a sonoridade avassaladora da faixa, deve ser algo intenso, mesmo que a letra pareça contradizer essa sensação. Em outros momentos, Cyrus encontra as palavras com mais facilidade ao cantar para sua musa, em vez de tentar nos descrevê-lo.
"Eu dobraria todo o espaço e o tempo para cair em suas mãos", canta Cyrus na comovente balada de piano "Orbit". Essa faixa de destaque, carregada de romantismo e sonhos, dispensa o brilho e o espetáculo — assim como a própria cantora tem feito ultimamente. Há uma doçura simples na forma como ela corre pelo corredor da igreja em "Let’s Get Married". No repertório de canções de amor de Cyrus, é um clássico instantâneo. Ela suaviza a história ao oferecer um vislumbre de como chegou àquele momento em "Snow". "Agora seu joelho está no chão enquanto estendo minha mão esquerda", ela canta. "Engula o nervosismo, pois o 'sim' já está na ponta da língua."
Essas canções soam especialmente puras e sinceras vindo de uma artista que passou por um divórcio e que, no passado, não resistiu a dizer a dois fãs apaixonados: "Espero que o casamento de vocês dê mais certo que o meu. O meu foi uma merda total". Cyrus não foge da destruição. Ela já encontrou joias entre os destroços e as ruínas antes. Desta vez, ela extraiu "Aftermath" de tudo isso. "Você já se sentiu em pedaços? Você pensa em mim de vez em quando?", ela pergunta. "Não fuja da pergunta." Quando não está escavando o passado, a única fonte real de sofrimento amoroso de Cyrus — em um álbum no qual ela, fora isso, demonstra total paixão — é sua irmã, aparentemente a pessoa a quem se refere a faixa “Innocent Ways”.
“Quero algo melhor para minha irmã / Ela só me liga tarde da noite, quando está chapada”, canta Cyrus no verso de abertura. Essa revelação que traz sobriedade contrasta com a sonoridade intensa e pulsante do baixo. “Será que ela mudou de número? / Tentei ligar três vezes / Será que ela está bem? Só chama.” Cyrus viveu muita coisa em seus 33 anos. Ela quer ser uma bússola, mas ainda está encontrando seu próprio caminho. Aprendeu a conhecer bem o medo e a ansiedade, sem permitir que chegassem perto o suficiente para dominá-la. Eles surgem discretamente em “REDLIGHTS”, uma faixa de synth-pop eufórica com acompanhamento de cordas. “A verdade é tudo de que precisamos, e também o que eu temo”, canta Cyrus. A faixa parece ser a demonstração mais clara e bem-sucedida do que *Bass Persuades* buscava alcançar, tanto em termos de sonoridade quanto de temática.
Contentamento. É isso que Cyrus vem buscando esse tempo todo. Ela se apega a esse sentimento como forma de resistir à busca incessante por um "algo mais" que nunca se concretiza. O álbum não transmite a sensação de que Cyrus esteja tentando alcançar um grande sucesso comercial — como ocorreu com *Endless Summer Vacation* — ou mesmo fazer a declaração artística que ela buscou em *Something Beautiful*. Seu legado já está consolidado: entramos na era das estrelas pop da geração Hannah Montana, e uma das músicas de maior sucesso no mundo atualmente, "Ain’t in LA", de Adéla, nasceu sob a influência de *Bangerz*.
O público volúvel do pop, que Cyrus um dia quis agradar, parece não ter mais qualquer influência sobre ela. Em meio ao som retumbante de "Bass Persuades", ela não ouve as contestações desafiadoras à ideia de que seu público a acompanhará aonde quer que ela vá. Eles não são o que a motiva — certamente não da mesma forma que o amor para o qual ela retorna ao fim do dia.
Ao chegar ao refrão de "REDLIGHTS", Cyrus reafirma seu compromisso de sempre viver na verdade. "Então, quando eu for chamada aos céus / Não temerei nada; até aproveitarei aquele último adeus / Pois tenho algo em que acreditar", ela canta. "E, meu amor, você é a razão / De eu voltar o rosto para a luz / Me entregar com amor e desaparecer na noite."
PASTE: NOTA 58 (22/09) - TEXTO NÃO DISPONIBILIZADO FORA DOS EUA - A resenha de Tatiana Tenreyro avalia o álbum Bass Persuades, de Miley Cyrus, com a nota 58 (C+), apontando que a artista adota uma postura segura e pouco inspirada em grande parte do disco. Embora traga momentos de destaque como a faixa "REDLIGHTS", o projeto peca pela falta de aprofundamento em suas ideias criativas. Você pode ler a análise completa no site da Paste Magazine.
NME: NOTA 60 (22/09) - Crítica de Miley – ‘Bass Persuades’: a estrela camaleônica não precisa mais dar explicações
A artista em constante evolução sente-se plenamente à vontade na própria pele em seu 10º álbum, ainda que os melhores momentos estejam escondidos na obra.
Depois de mergulhar no experimental e no psicodélico com *Something Beautiful*, do ano passado, seu décimo álbum, *Bass Persuades*, apresenta uma sonoridade e uma ambição mais diretas. Com apenas nove faixas e um remix — tudo isso em menos de 40 minutos —, o disco é mais enxuto, objetivo e claramente voltado para as pistas de dança, mas preserva a veia excêntrica que tornou seu antecessor tão fascinante.
O álbum chega em um momento de reinvenção para Cyrus: é o seu primeiro trabalho pela nova gravadora, a Atlantic, e o primeiro projeto assinado simplesmente como Miley. Uma mudança sutil, porém uma declaração decisiva de uma artista que já foi estrela do country-pop, provocadora na era *Bangerz*, aventureira no hip-hop e roqueira — mas que, agora, não parece mais interessada em dar explicações. É a sonoridade de uma estrela a caminho de se tornar uma verdadeira diva, seguindo a linhagem de Debbie Harry, Madonna e Dolly Parton — a amada madrinha de Cyrus, já falecida.
Há uma leveza neste disco, um frescor na sua energia e na interpretação de Cyrus. "Bass Persuades" não força a barra: simplesmente deixa Cyrus ser ela mesma, com sua voz rouca característica elevando-se sobre refrões grandiosos e uma confiança natural. O álbum apresenta uma variedade louvável, indo da ensolarada "Redlights" — com sua sonoridade à la ABBA — à pulsação industrial e crua de "Different Religion" e à atmosfera *sleaze* de "Neon Signs" (com Andrew Wyatt, do Miike Snow), cujos vocais de apoio deslizam para uma troca sussurrada e quase explícita.
A faixa-título deixa um pouco a desejar. É uma música de batida marcante e sintetizadores que quer fazer você largar o celular e dançar, mas não traz nem a crítica afiada ao estilo de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, nem o apelo unificador para as pistas de dança típico de um sucesso de Gloria Estefan ou Paula Abdul. “Let’s Get Married” — uma homenagem etérea a Maxx Morando, noivo de Cyrus e colaborador do álbum — é uma faixa segura, próxima do *dream-pop*, que o TikTok vai abraçar com avidez, assim como fez com “No One Noticed”, do grupo The Marías.
Os momentos mais interessantes estão nas faixas menos óbvias do álbum. "Innocent Ways" é um destaque vibrante e pulsante, além de uma das canções mais pessoais de Cyrus: um retrato de sua irmã mais nova e uma reflexão sobre a fama e uma família fragmentada ("Oito noites seguidas em crise / Ela fica igualzinha a mim quando chora"), acompanhada por um verso sobre adotar o sobrenome de solteira da mãe — um detalhe específico demais para passar despercebido ("As consequências da fama / Adotar o sobrenome de solteira da minha mãe"). "Aftermath" também traz sentimentos íntimos em meio a uma batida eletrônica frenética, relembrando um relacionamento fracassado ("Sinto falta do futuro como de um rosto que esqueci... Estou farta de poetas e de tentar ser profunda").
Nem todas as faixas convencem, mas, com quase duas décadas de carreira fonográfica, Cyrus não tem nada a provar — e sabe disso. "Bass Persuades" transmite confiança e segurança, refletindo uma artista em constante evolução que cria música estritamente sob seus próprios termos.
THE LINE OF BEST FIT: NOTA 70 (22/09) - Miley Cyrus faz uma transição carismática com a apaixonada "Bass Persuades".
Miley Cyrus é a própria personificação do gênero pop, movida puramente por instinto e impulso.
Após deixar para trás a persona Hannah Montana com *Bangerz* (2013) — uma mistura vertiginosa de pop e hip-hop —, a carreira da artista de 33 anos tem sido marcada por constantes mudanças de direção, construindo uma discografia vasta e ambiciosa, na qual o cinematográfico *Something Beautiful* (2025) marcou um novo auge criativo. Em *Bass Persuades*, seu décimo álbum e o primeiro pela gravadora Atlantic, ela mantém o compromisso com a qualidade, mas não com o sobrenome artístico que a consagrou. Como o título sugere, o trabalho é marcado pela liberdade de expressão e pelo refinamento.
Cyrus lidera a composição e a produção; o resultado final possui uma sensibilidade carismática e espontânea, condizente com a rapidez com que ela afirma que o projeto ganhou forma. Desta vez, o time de talentos ao seu redor inclui Kid Harpoon, Michael Pollack, Griff Clawson, Gregory "Aldae" Hein, a banda pós-punk Model/Actriz, a equipe de composição e produção Monsterz & Strangers e seu noivo, Maxx Morando — cuja presença é sentida ao longo de todo o álbum, que traz uma atmosfera mais romântica.
Um elemento central de *Bass Persuades* é o seu andamento mais moderado. Das nove faixas (além de um remix de "Bass Persuades" feito pelo Model/Actriz), cinco se enquadram no estilo de balada pop. "Let’s Get Married", "Orbit" e "REDLIGHTS" são os destaques dessa categoria, repletas de nuances de soul clássico, pop adulto contemporâneo e *art-rock* com ares de Ennio Morricone — sonoridades que ela já havia explorado em *Something Beautiful* e *Endless Summer Vacation* (2023), e que continuam a lhe cair como uma luva.
Numa vertente mais dançante, Cyrus sempre soube encontrar aquela batida envolvente — seja trap, nu disco ou new wave — e habitá-la com naturalidade. Em *Bass Persuades*, ela incorpora uma sonoridade eletrônica mais incisiva e uma estética alternativa mais densa em faixas como "Aftermath", "Innocent Ways", "Different Religion" e a música-título. "Different Religion" é uma colaboração deliciosa com o Model/Actriz, repleta da energia frenética e excessiva do dance-punk; já "Bass Persuades" soa como uma carta de amor à fase inicial de Lady Gaga, mas com aquele toque irreverente típico de Cyrus — algo ainda mais acentuado na versão "remixx", de sonoridade mais agressiva.
Dando um toque especial a essa sonoridade fresca e, ao mesmo tempo, familiar, estão letras que exploram a introspecção, a sensualidade e a paixão desenfreada — características evidentes em "Snow" e "Neon Signs", um dueto com Andrew Wyatt, do trio de indie-pop Miike Snow. A voz de Cyrus exibe toda a sua riqueza aveludada e emotiva ao longo de *Bass Persuades*, mas a entrega dela nessas duas faixas é particularmente cativante.
Embora mantenha a essência impulsiva e visceral de sempre, ela amadureceu com a experiência; *Bass Persuades* celebra tanto a sabedoria conquistada com esforço quanto seu gosto musical refinado e seguro — nada mais, nada menos. Pode não ser um trabalho tão vanguardista quanto o anterior, mas é fascinante da mesma forma.
PITCHFORK: NOTA 53 (24/09) - Miley Cyrus possui uma voz marcante, um carisma avassalador e uma notória veia excêntrica, mas seu novo álbum — curto e pouco inspirado — já soa datado.
Miley Cyrus talvez seja a figura mais convicta da música pop em ir contra a maré. Quando os críticos imploraram para que ela pegasse leve após o VMA de 2013, ela lançou um projeto pessoal psicodélico e de estética vibrante, com instrumentais de tigelas tibetanas e faixas com títulos como “Fucking Fucked Up” e “I’m So Drunk”. E, enquanto nós exigíamos que ela intensificasse a ousadia, ela tentava encontrar sossego. “Nunca conseguimos nos ver dormindo tranquilamente ao lado de quem amamos”, lamentou ela na faixa “Lighter” — uma exceção no álbum *Miley Cyrus & Her Dead Petz* —, sinalizando para onde queria ir mesmo em meio à guinada estética mais questionável de sua carreira: basicamente, para o seu lado em Malibu. Seja interpretando a festeira, a psiconauta ou a provocadora do rock retrô, o impulso que move Cyrus sempre foi mais sereno do que aparenta. Ela nunca quis que a festa durasse para sempre.
Em *Bass Persuades* — o sucessor de *Something Beautiful* (2025), álbum pretensioso e "inspirado" no Pink Floyd —, parece que Cyrus estagnou. Ela tem falado com entusiasmo sobre a felicidade doméstica que encontrou recentemente, vivendo uma sobriedade feliz e o noivado com seu frequente colaborador, Maxx Morando. Pelo menos *Something Beautiful* foi uma tentativa ousada que não deu certo; já *Bass Persuades* mal deixa qualquer impressão. Oscilando entre um glam-rock diluído e o sentimentalismo brega do disco-pop — elementos que a têm limitado desde *Plastic Hearts* (2020) —, *Bass Persuades* questiona por que a "garotada" de hoje "não quer dançar", mas não oferece absolutamente nada ao som do qual se possa dançar.
Felizmente, Cyrus fez uma limpa em sua equipe de colaboradores após *Something Beautiful*, mas o grupo que ela manteve não está nem aí para "reconstruir melhor". Kid Harpoon e Michael Pollack, a mesma dupla que ajudou a produzir "Flowers" em série, retornam com força avassaladora, atropelando qualquer sinal de diversão. "REDLIGHTS" tenta emular o ABBA, mas o resultado parece algo saído da trilha sonora da sala de espera de um museu imersivo dedicado à banda, cobrindo o timbre arrebatador de Cyrus com um verniz robótico desnecessário. "Let’s Get Married" é mais uma faixa fracassada com ares de Bruno Mars, totalmente desprovida de paixão. Será que ela não consegue se livrar criativamente desses sujeitos e de seu onipresente noivo? Morando precisa mesmo ser o produtor coadjuvante em quase todas as músicas — sem contar uma balada sentimental desajeitada sobre viver na órbita dele? (A música se chama "Orbit".) Assim como Rihanna, Cyrus possui um brilho de estrela que fala por si só: ela não precisa (nem deveria, francamente) compor suas próprias músicas. Mas esses caras também não deveriam.
Às vezes, Cyrus se volta para perspectivas mais interessantes. "Different Religion" marca seu reencontro com Cole Haden, da banda Model/Actriz; ela claramente aspira recriar a sonoridade glam rock abrasiva dele — se você apertar os olhos e focar na participação dele, a faixa poderia passar por um lado B do Pirouette. Mas Haden não consegue salvar a música daquele vazio de intenções que prejudicou *Something Beautiful*: um exercício de autoria sem visão real. Ela brilha quando deixa de lado o painel de referências, como na intrigante "Neon Signs", uma valsa sobre encontros casuais noturnos, bizarra o suficiente para soar inventiva. Escalando Andrew Wyatt (do Miike Snow) para o papel — imagino eu — de um sósia de Elvis que ela conheceu após o turno mais longo da vida dele numa capela de *drive-thru*, Cyrus cria uma música de sexo tão desprovida de sensualidade que beira o absurdo puro. Quem iria querer transar ao som sensual de um relógio cuco no ritmo de "Danúbio Azul", com um cara que respira pela boca e diz: "Algumas pessoas acham que eu sou sinistro"? Não faço ideia, mas pelo menos isso despertou minha curiosidade.
“Aftermath”, uma balada de ritmo acelerado e alheia ao fato de que as rádios pop evoluíram desde 2017, também se destaca por resgatar parte da força propulsora de seu trabalho com Mark Ronson. “Cansei de poetas e de ser profunda”, canta Cyrus, antes de completar: “Você era meu”. Esse refrão de apenas três palavras é, por si só, a melhor demonstração da imensa resiliência da voz dela — rouca e distinta o suficiente para fazer com que uma das frases mais batidas da língua inglesa doa como se fosse a primeira vez. Infelizmente, ela precisa dividir espaço com absurdos como “Sinto falta do futuro como de um rosto que esqueci / Como as minhocas sentem falta da terra no fundo do vaso”.
Apesar de seu gosto duvidoso, Cyrus permaneceu como uma formadora de opinião — afinal, ela abriu caminho para as maiores estrelas (e as que estão em ascensão) da Geração Z com seus próprios tropeços. ADÉLA, a estrela pop eslovaca do momento que aprendeu inglês assistindo a *Hannah Montana*, emplacou um sucesso com “Ain’t in LA”, faixa que é uma mutação de “We Can’t Stop”. Nettspend, a nova cara do pânico racial, está usando *samples* de “23”; Chappell Roan, ao participar do especial de 20 anos de *Hannah Montana*, disse a ela: “Você literalmente caminhou para que eu pudesse correr”. Até mesmo Sabrina Carpenter seguiu algumas dicas de movimentos de Miley que, outrora, eram amplamente considerados passos em falso: as poses lascivas de “Juno” não teriam repercutido tanto se não houvesse o precedente de Cyrus rebolando com um dedo de espuma gigante.
Nos mais diversos cantos da cultura pop pós-virada do milênio, Miley é uma referência duradoura: seja por fracassos que desafiaram limites, pela incursão no rock ou pela atitude de não dar a mínima para o que os outros pensam. Ela é simplesmente *cool*, o tipo de ícone seguro de si o bastante para espalhar um pouco de brilho estelar sobre quem precisa. No entanto, após dez álbuns, seu carisma ainda entra em conflito frustrante com sua música, que parece presa em um ciclo vicioso em torno do mesmo vazio artístico. Todo mundo está apenas sendo Miley; por que ela tem tanta dificuldade?
Via: Metacritic e textos originais.
ATUALIZAÇÃO 21/09: Considerando a primeira média de “Bass Persuades” no Metacritic, dia 21, de NOTA 66, estas foram as estreias de médias dos álbuns de Miley no Metacritic:
1. ESV — 79
2. Plastic Hearts — 75
3. Something Beautiful — 71
4. Bass Persuades — 66
5. Breakout — 66
6. SHE IS COMING — 64
7. The Time Of Our Lives — 63
8. Bangerz — 61
9. MC & Her Dead Petz — 60
10. Younger Now — 58
11. Can’t Be Tamed — 48




Comentários