HANNAH MONTANA: MILEY É CAPA DA EDIÇÃO ESPECIAL DA VARIETY COM GRANDE ENTREVISTA
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- 18 de mar.
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Atualizado: 22 de mar.
Miley Cyrus é capa da revista norte-americana VARIETY na edição de março de 2026 em comemoração aos vinte anos da estreia da série Hannah Montana pela Disney, e a artista concedeu uma looonga entrevista para Ethan Shanfeld, com fotos de Greg Swales. Destaque da entrevista para: música inédita, participação especial de Selena Gomez, set original, a performance de Hannah e o Super Bowl. Confira a tradução completa a seguir:
*Entrevista de 16 minutos no site da Variety!
"Eu não estava tentando acabar com a Hannah Montana": Miley Cyrus fala sobre "reivindicar" o ícone da Disney após 20 anos, ficar sóbria e se reencontrar com o pai, Billy Ray.
Numa sexta-feira absurdamente quente de fevereiro, 215 fãs sortudos fazem fila no Sunset Gower Studios, em Hollywood, para testemunhar o renascimento de um ícone pop.
Há mulheres usando microfones de fone de ouvido, homens com perucas laranja de corte chanel, lenços brilhantes sobre vestidos de lantejoulas com cores que não combinam, camisetas vintage de turnês, meias-calças amarelas com estampa de zebra, bolsinhas agarradas a jaquetas jeans turquesa peludas, cintos sobre cintos sobre cintos e uma luva rosa sem dedos. Uma mulher voou do Texas para testemunhar este evento misterioso — outra viajou de São Paulo. Logo, essa horda de millennials superacessórios é conduzida a um estúdio de gravação, com seus celulares trancados em bolsas. De um lado: uma praia artificial e o closet dos sonhos de uma adolescente. De um lado, um palco vazio iluminado por luzes cintilantes. Uma hora se passa e, então, por uma fresta na cortina, Miley Cyrus abre um sorriso e ajeita seus enormes óculos de sol pretos. Ela entra no palco com um deslumbrante vestido preto longo e cumprimenta os fãs que gritam. “Bem-vindos ao Hannahversário”, diz ela, jogando a franja loira para o lado enquanto começa a cantar “This Is the Life”, a música com toques country que apresentou “Hannah Montana” ao mundo exatamente 20 anos atrás. Em seguida, erguendo o pedestal do microfone sob a luz de um holofote, Cyrus solta a voz na poderosa balada “The Climb”.
“Vocês vão ficar de boca aberta com o que está por vir”, diz Cyrus antes de desaparecer atrás da cortina para trocar de roupa. Ela pode estar falando sobre a próxima música — “The Best of Both Worlds” — ou sobre a celebração em geral: este show está sendo filmado como parte de um especial de aniversário de uma hora de “Hannah Montana”, que será exibido no Disney+ em 24 de março. Além da voz de Cyrus — agora mais grave e rouca — as músicas soam exatamente, gloriosamente, iguais.
“Eu não queria dar uma abordagem moderna à Hannah”, diz Cyrus alguns dias depois em um café aconchegante e quase vazio em Silver Lake. “Eu queria manter a essência. Mas também, agora a Hannah usa Gucci”, diz ela, pronunciando a palavra como “Gew-chee”. “Ela está mais sofisticada. Ela precisa ter um visual um pouco menos ‘Galeria’”, acrescenta Cyrus, referindo-se ao shopping de Glendale onde costumava comprar algumas das regatas brilhantes e calças jeans skinny da Hannah.
Mas “Hannah Montana” era muito mais do que moda; foi um fenômeno multimídia que transformou Cyrus em uma das estrelas infantis mais famosas da história. De 2006 a 2011, a série, sobre uma adolescente chamada Miley Stewart que leva uma vida dupla como cantora pop, foi a joia da coroa do império Disney Channel no auge de seu domínio sobre a juventude americana. (Seu legado perdura: mais de meio bilhão de horas do programa foram assistidas nesta década no Disney+.) O álbum da primeira temporada foi a primeira trilha sonora de TV a estrear em 1º lugar na Billboard 200, e a turnê “Best of Both Worlds” de Cyrus, em 2007, esgotou ingressos em 71 arenas na América do Norte. O documentário que acompanhou a turnê foi o filme-concerto de maior bilheteria de todos os tempos em seu lançamento. “Houve momentos em que Hannah Montana parecia os Beatles ou algo assim”, diz Cyrus. (De fato, uma seção inteira do documentário é dedicada a garotas gritando a plenos pulmões.)
Cheguei cedo a este café no lado leste da cidade e disse à recepcionista que ia encontrar alguém importante e perguntei se poderíamos, por favor, reservar uma mesa mais reservada nos fundos. Ela não se importou — afinal, isto é Los Angeles; todo mundo se acha famoso — e, depois de um tempo, fiquei preocupada que os funcionários ociosos pensassem que eu tinha levado um bolo. Mas quando Cyrus chegou, uma curiosidade silenciosa tomou conta do lugar: ela é uma estrela de verdade, uma estrela rara que muda o centro gravitacional de qualquer ambiente em que esteja.
Seu cabelo está arrumado em uma franja dourada e despenteada, e ela usa óculos escuros e uma camiseta branca que deixa à mostra a colagem de tatuagens espalhadas pelos seus braços. Sua presença é calorosa e tranquila. Com um latte de leite de aveia e um chá de camomila nas mãos, ela parece a versão adulta da estrela pop fictícia mais famosa do mundo, ressurgindo após um hiato de 15 anos. Ela está aqui, em parte, para falar sobre o especial, e resume tudo com estas palavras: "Foi como voltar para casa".
Depois do fim de "Hannah Montana", Cyrus construiu sua própria carreira, tornando-se a cantora e compositora camaleônica que liderou as paradas de sucesso com hits como "Wrecking Ball", "Party in the U.S.A." e o premiado com o Grammy "Flowers". Aos 33 anos, ela é uma das artistas mais talentosas e, por muito tempo, mais criticadas de sua geração. (Mais sobre isso adiante.) Cyrus já abandonou sua imagem impecável da Disney, mas agora retornou às suas raízes loiras para "reivindicar" Hannah Montana.
"Muitos artistas sentem que, para se tornarem a próxima versão de si mesmos, precisam deixar algo para trás", diz Cyrus. “Mas eu prefiro ser como um lindo cobertor de retalhos. Prefiro pegar cada pedacinho de tudo o que eu fui e criar um mosaico de exatamente quem eu sou agora — sem jogar nada do meu passado fora, mas permitindo que ele venha comigo.” Ela espera que o especial inspire as pessoas a “não levarem tudo tão a sério”.
No ano passado, Cyrus começou a divulgar planos para o 20º aniversário de “Hannah Montana”, insinuando em entrevistas e em tapetes vermelhos que tinha algo “especial” em mente. Na época, ela estava mentindo. Ou melhor, manifestando?
“Aprendi esse péssimo hábito — mas acho que foi um bom conselho — com a Dolly”, diz ela, referindo-se à lenda da música country que chama de madrinha. “Ela me disse que se você quer que algo aconteça, promova antes que exista. Assim, ninguém pode dizer não. Então, eu simplesmente comecei a promover um especial de 20º aniversário de ‘Hannah Montana’ que literalmente não existia.”
“Acho que até a Disney às vezes se esquece da ligação entre mim e a Hannah”, acrescenta. “Não é só um programa de TV. Vejo diariamente o quanto a Hannah é importante para as pessoas. Quando viajo, as pessoas me trazem produtos da ‘Hannah’. Elas perguntam: ‘Você vai fazer outra temporada algum dia?’”
Então, Cyrus plantou as sementes no verão passado, sentou-se e observou a expectativa crescer. Ela começou a enviar reações de fãs para a Disney, dizendo: "Estou dizendo, isso seria enorme."
"Ela fez com que isso se tornasse realidade", diz o executivo da Disney, Charlie Andrews, que ajuda a fomentar novos fãs para antigos programas do Disney Channel. A empresa começou o planejamento em dezembro e, desde janeiro, tem sido uma "corrida louca" para executar a visão de Cyrus. "O que ela deixou bem claro é que isso é para os fãs. Isso influenciou literalmente todas as decisões que ela tomou."
Cyrus primeiro recrutou Alex Cooper, apresentadora do programa "Call Her Daddy" e autoproclamada superfã de "Hannah Montana", para entrevistá-la no especial. "Ela entende a Hannah de uma forma que eu não conseguiria", diz Cyrus. "Eu nunca pude vivenciar a Hannah sendo louca na roda punk com outras crianças." Com isso em mente, Cooper ajudou a projetar o evento em torno do que os fãs realmente se importam, chegando a rejeitar algumas das ideias de Cyrus. “Ela dizia: ‘Como fã da Hannah, ninguém quer isso’”, conta Cyrus.
Guiados por esse fandom, eles se certificaram de incorporar os pequenos detalhes que trariam nostalgia aos espectadores: os movimentos de cabelo, os comerciais da varinha mágica do Disney Channel e, claro, a música de transição “Ooh-whoa-ooh-whoa-ooh-ooh-whoa”. A mãe de Cyrus, Tish, trouxe dezenas de figurinos, cartas de fãs e álbuns de recortes dos arquivos, e a Disney recriou os cenários da casa dos Stewart. Uma coisa que Cyrus não queria replicar era a peruca da Hannah, então ela tingiu o cabelo e fez uma franja. Cooper também providenciou uma participação especial de Selena Gomez, outra estrela da Disney e atriz convidada de “Hannah Montana”, que surpreendeu Cyrus no set. “Eu adoro a Selena, mas não sabia o quanto nossa amizade significava para os fãs”, diz Cyrus.
Foi ideia de Cooper também abrir o especial com um momento emocionante, com Cyrus dirigindo de Malibu até o estúdio. "Eu não tinha pensado na correlação entre a casa da Hannah em Malibu e a minha casa em Malibu", diz Cyrus, "e minha casa pegando fogo e eu reconstruindo-a."
Então vieram as performances. Cyrus não cantava "Best of Both Worlds" desde 2008, mas bastaram três ensaios para ela voltar à ativa. "Era literalmente uma bicicleta. Os dançarinos estavam fazendo coisas, e eu pensava: 'Isso não é original!'", diz ela, balançando o dedo e intensificando seu sotaque sulista. "E eles diziam: 'Bem, estamos tentando modernizar'. Eu respondia: 'Em time que está ganhando não se mexe!'" Mesmo assim, ela vai dar um toque de frescor ao especial apresentando uma música inédita.
Para Cyrus, era importante preservar o espírito da música de Hannah. Ela pode estar cantando a mesma música tema da Disney que cantava aos 13 anos, mas não há nenhum traço de ironia ou sarcasmo. "Não queríamos ironia. Isso não é uma piada", diz ela. "Eu queria que isso se tornasse um momento viral. Meu objetivo ao fazer isso não era quebrar a internet." Seu objetivo, diz Cyrus, era fazer com que os fãs "se sentissem representados". "Toda a minha vida se deve a essa lealdade."
Durante a gravação, a plateia do estúdio é instruída a cantar "Hannah... Hannah..." antes de Cyrus retornar para cantar "Best of Both Worlds". Mas antes de Cyrus reaparecer, o coro muda para "Miley". "Isso foi realmente emocionante para mim", diz ela mais tarde. "Acho que eles pensaram: 'Queremos garantir que Miley sinta que estamos celebrando seus 20 anos da mesma forma.' Não se trata apenas do programa em si. Trata-se de toda a minha evolução e crescimento."
“Eu amo o presente e amo o futuro. Mas o passado não é um lugar onde eu goste muito de viver”, diz Cyrus, enquanto espreme mel de um tubo de plástico em seu chá.
Voltando ao escrutínio: em 2008, enquanto filmava o filme “Hannah Montana”, Cyrus, então com 15 anos, foi fotografada para a capa da Vanity Fair usando apenas um lençol. A reação negativa à foto ousada foi tão intensa que Cyrus pediu desculpas, o que acabou na primeira página do The New York Post com a manchete “A VERGONHA DE MILEY”.
“Lembro-me de estar sentada no computador da família, olhando o que as pessoas estavam dizendo sobre mim”, diz Cyrus. “Eu não estava tanto arrependida, mas sim envergonhada pela reação, e senti que pedir desculpas só apagaria muitos incêndios.” Em retrospectiva, Cyrus diz: “Não acho que fosse motivo para um pedido de desculpas, porque eu não fiz nada de errado.” Nos anos seguintes, Cyrus voltou a ser notícia por suas travessuras típicas da adolescência. Aos 18 anos, perdeu um contrato milionário com o Walmart por causa de um vídeo vazado em que aparecia fumando um bong. E um ano depois, foi demitida do papel principal em “Hotel Transilvânia” devido a uma foto vazada em que posava com um bolo de aniversário em formato de pênis. Esses escândalos a magoaram na época, mas, olhando para trás, Cyrus não mudaria nada. “Arrependimento é coisa do passado e inútil”, diz ela.
Se a Disney às vezes se esquece da ligação entre Cyrus e Hannah, talvez seja porque, por muito tempo, pareceu que Cyrus também queria esquecê-la. Em 2013, um ano após o fim da série, Cyrus, então com 20 anos, lançou o que foi visto como uma reformulação rebelde de sua imagem. Ela trocou a peruca de Hannah por um corte pixie loiro platinado e penteado para trás. Passou a andar com rappers e a fumar muita maconha. Ela mostrou tanto a língua que isso gerou artigos de opinião no The Atlantic e no The Guardian. E incinerou os restos de sua imagem da Disney Channel em uma performance infame no VMA, na qual fez twerk em cima de Robin Thicke. Alguns meses depois, ela apresentou o “Saturday Night Live” e declarou, em tom de brincadeira, que Hannah Montana havia sido “assassinada”. Celebrando o 10º aniversário da série em 2016, Cyrus escreveu no Instagram: “Mesmo que a HM esteja picada em pedacinhos e enterrada no meu quintal, ela sempre terá um lugar muito especial no meu coração!”.
Mas neste aniversário, Hannah Montana está muito viva. Ao contrário da crença popular — e de alguns de seus comentários anteriores — Cyrus diz: “Eu não estava tentando matar a Hannah. Eu só estava evoluindo”. “Ser reconhecida como uma adolescente passando por diferentes fases e estágios às vezes era estranho”, ela continua, “mas foi isso que me ajudou a me conectar com as crianças que assistiam em casa”.
Cyrus observa que se reinventar foi um risco, já que poderia ter estrelado mais filmes de “Hannah Montana” e outros projetos da Disney.
“Eu me apresentei ao mundo de forma ousada e sem pedir desculpas naquela época, quando poderia ter escolhido o caminho mais seguro”, diz ela. “Talvez isso tivesse dado certo na época, e não teria sido um fardo tão pesado, mas eu não teria tido a recompensa. Não sei se teria a estabilidade que minha carreira tem hoje.”
Ao longo de todas as diferentes fases da vida de Cyrus, uma constante tem sido o apoio de sua mãe. “Quando você é criança, seus pais não querem comprar uma jaqueta do seu tamanho porque você ainda está crescendo; eles compram um tamanho maior para que dure mais”, diz ela. “Foi isso que minha mãe fez por mim na minha carreira.”
Tish até imortalizou a jornada de mãe e filha em uma tatuagem. “Minha mãe literalmente tem a letra de ‘The Climb’ tatuada nas costas”, conta Cyrus. “Tipo um refrão completo e uma ponte.” Ela ri. “As pessoas sempre perguntam a ela: ‘O que você estava pensando quando a Miley estava fazendo aquelas coisas malucas?’ Ela responde: ‘Eu que estava dizendo para ela fazer!’”
Cyrus nasceu em 1992, o mesmo ano em que seu pai, Billy Ray Cyrus, emplacou a música country número 1 nos Estados Unidos. Seu nome era Destiny Hope Cyrus, mas seu jeito alegre lhe rendeu o apelido de família "Smiley", mais tarde abreviado para Miley. A família morava no Tennessee, e Tish levava Cyrus de carro para outros estados para fazer testes para papéis. Aos 12 anos, Cyrus tinha apenas alguns trabalhos no currículo: três episódios do drama médico "Doc", ao lado do pai, uma pequena participação em "Peixe Grande", de Tim Burton, e um comercial de torta de frango.
Quando a Disney começou a selecionar o elenco para uma nova sitcom sobre uma estudante do ensino fundamental que secretamente trabalhava como estrela pop, Cyrus inicialmente fez o teste para o papel da coadjuvante, Lilly, que acabou sendo interpretada por Emily Osment. A emissora então pediu a Cyrus que gravasse um vídeo como a personagem principal — uma garota chamada Chloe. Mas a Disney seguiu um caminho diferente, decidindo que Cyrus era muito pequena e jovem. Então ela voltou a ser líder de torcida em sua escola de ensino fundamental nos subúrbios de Nashville, e a Disney gravou um piloto com um elenco diferente.
Um ano depois, o telefone dos Cyrus tocou; eram os produtores. “Hannah Montana” simplesmente não estava funcionando, e eles queriam que Cyrus voasse para Los Angeles para fazer um novo teste — desta vez pessoalmente. Cyrus se lembra de ir ao shopping no Tennessee para escolher uma roupa para o teste. Ela viu seu destino pendurado em um cabide: uma camiseta azul e branca que dizia: “Eu deveria ter meu próprio programa de TV”. Ela conseguiu o papel, e então chegou a hora de escolher o pai de Hannah. Como Tish se lembra, um diretor de elenco da Disney, encantado por Billy Ray, brincou: “Que pena que não podemos pagar o pai dela de verdade”, e Tish disse: “Ah, talvez vocês possam”. Ela convenceu seu então marido a voar para a Califórnia para fazer o teste. Billy Ray estava filmando “Doc” em Toronto, dividindo seu tempo entre o Canadá e o Tennessee. Tish viu em “Hannah Montana” uma oportunidade de reunir a família.
“Mas meu pai é muito bonzinho”, diz Cyrus. Ela conta uma história que virou lenda familiar: “Ele sai para o estacionamento, chama outros pais, leva eles para a Disney e diz: ‘Vocês deviam contratar esse cara! Ele é um ótimo ator!’ E minha mãe estava atrás dele, apertando suas costas, dizendo: ‘Cala a boca! Precisamos que você consiga o papel para podermos nos mudar para cá!’”
“Meu pai sempre diz: ‘Quando você arrasa, não precisa de juiz.’ Nós arrasamos”, lembra Cyrus. “Depois de todos os outros pais, ficou tão óbvio que não dá para fingir o tipo de conexão que temos. As piadas internas, os apelidos, os apertos de mão, cantando as músicas juntos. Foi um nocaute técnico.”
O resto é história: Billy Ray estrelou 99 episódios da série como um cantor country aposentado que gerencia e compõe músicas para sua filha, uma estrela pop.
Os últimos anos testemunharam uma mudança radical na televisão infantil, impulsionada por uma série documental de 2024 focada nos supostos abusos durante a gestão do produtor Dan Schneider na Nickelodeon. Cyrus acredita que ter Billy Ray no set a ajudou a se proteger do lado sombrio da fama precoce.
"Meus pais não precisavam que eu fosse famosa para sobreviver ou ter estabilidade", diz ela. "O que acontece com muitas dessas crianças é que seus pais querem isso mais do que elas, ou as crianças se tornam responsáveis por toda a renda da família. Esse nunca foi o meu papel. Cada centavo que ganhei foi para a minha conta bancária porque meus pais eram bons."
Durante os cinco anos de exibição de “Hannah Montana”, o camarim de Cyrus era conectado ao do pai, e entre eles havia uma cozinha transformada em escritório onde sua avó, Loretta “Mammie” Finley, administrava seu fã-clube. “Meu pai estava no set todos os dias, então não havia nada que pudesse acontecer sem que ele soubesse”, diz Cyrus. “Nunca houve um momento em que eu ficasse sozinha naquele camarim.”
Conforme o casamento de seus pais desmoronava no final de "Hannah Montana", o relacionamento de Cyrus com seu pai começou a se deteriorar. O afastamento entre eles se tornou público com o longo divórcio de Billy Ray e Tish, finalizado em 2022. Os dois ficaram anos sem se falar. Então, em 2025, Cyrus escreveu uma música para ele chamada "Secrets", uma oferta de paz com a participação de Lindsey Buckingham e Mick Fleetwood, já que Fleetwood Mac é a banda favorita de seu pai. Na música, Cyrus canta: "Retire todas as suas forças / Uma bandeira branca na guerra".
Billy Ray chorou ao ouvi-la, escrevendo no Instagram: "Uma ótima música pode fazer mais pela alma do que um milhão de sessões de terapia".
Os dois se reencontram no especial de "Hannah Montana", dançando em uma réplica da sala de estar da família Stewart.
Durante a pandemia, quando estava na casa dos 20 anos, Cyrus tomou uma decisão que mudou sua vida: ela parou de beber. “Não é surpresa que eu tenha tido experiências com drogas e álcool”, diz ela, refletindo sobre a vertigem da fama na infância. “Eu estava tão acostumada a viver em êxtase, e acho que nunca aprendi a descer dessa forma. Agora, com a sobriedade, consigo ter compaixão e compreensão por mim mesma.”
Além da terapia tradicional, ela também experimentou a EMDR, um tipo de psicoterapia baseada em movimentos oculares guiados. Ela atribui à técnica o mérito de tê-la ajudado a confrontar a origem de sua ansiedade — e a curar seu medo de palco. “Você não viu nenhum nervosismo, né?”, pergunta ela sobre a gravação do show de “Hannah Montana”. “No passado, isso teria tomado conta do meu corpo inteiro. Eu teria ficado paralisada.”
Isso não significa que Cyrus planeja fazer turnê novamente. Ela jurou nunca mais se apresentar em arenas depois da turnê "Bangerz" de 2014 e, desde então, tem se apresentado principalmente em festivais selecionados e eventos de TV ao vivo, além de seus shows particulares intimistas no Chateau Marmont, em Los Angeles. "Eu realmente sinto falta e adoro shows ao vivo", diz Cyrus. "Mas ficar na estrada por seis meses do ano, longe da minha família, da minha normalidade e da minha rotina, simplesmente não é o melhor para mim." Cyrus é atualmente a favorita nas apostas para ser a atração principal do Super Bowl do ano que vem. Ela aceitaria uma oferta para se apresentar?
"Eu sempre acho que o Super Bowl é muita pressão", diz ela. “Eu teria que fazer um esforço mental para que não fosse sobre o Super Bowl, porque aí você acaba pensando: ‘São milhões de pessoas, e é o evento mais assistido do mundo’”.
“Mas se eu conseguisse encontrar uma maneira de fazer exatamente o que foi o Hannahversary — uma jornada pela discografia, apreciando cada música, cada era pelo que ela é — acho que conseguiria fazer isso.”
Cyrus também se mostra aberta a novas possibilidades em relação à atuação. Seu último papel de destaque na tela foi em um episódio de “Black Mirror” de 2019, no qual interpreta, naturalmente, um ícone pop. Ela diz estar “muito interessada” em voltar a atuar: “Só ainda não encontrei o papel certo para mim”. Ela até já começou a anotar algumas ideias próprias. “Eu gostaria de uma personagem que fosse uma extensão de mim. Ou algo completamente diferente de quem eu sou.”
Se o futuro parece imprevisível, é porque Cyrus prefere assim. “Eu adoro mudanças”, diz ela. “Tudo o que eu disser pode ser descartado amanhã.”
Ao mesmo tempo, ela finalmente chegou a um ponto em que tudo parece estar alinhado. “Minha vida está tão linda. Nunca mais me sinto como se estivesse nadando contra a corrente”, diz ela. No ano passado, ela ficou noiva de seu namorado de longa data, o músico Maxx Morando. “Gosto da forma como as pessoas me veem. E quando saí de ‘Hannah’ e lancei ‘Bangerz’, não me sentia assim.”
Naquela época, parecia que Cyrus carregava o peso do Reino Mágico [da Disney]. Nos anos que se seguiram, ela acredita que as expectativas do público em relação às estrelas mirins mudaram. E embora Cyrus se mantenha afastada das redes sociais, ela acredita que a mídia é menos cruel agora do que era durante o auge dos tabloides. “Somos muito mais tolerantes e celebramos a individualidade das pessoas do que éramos há 10 anos”, diz ela. “Gostaria de pensar que contribuí para isso.”
Conforme foi crescendo, Cyrus teve a sorte de contar com lendas da música como Parton, Joan Jett e Stevie Nicks como mentoras. E ela espera um dia assumir um papel semelhante para artistas mais jovens que seguem seus passos. Quando Chappell Roan falou abertamente sobre os desafios que enfrentou com o assédio de fãs, Cyrus foi uma das primeiras celebridades a entrar em contato com ela.
“Eu nunca me curvo a valentões. Sempre que sinto que alguém está sendo intimidado, me sinto muito protetora em relação a essa pessoa”, diz Cyrus. “Quando vejo pessoas com dificuldades, sou sempre a primeira a perguntar: ‘Posso entrar em contato com elas?’ Gostaria de mostrar aos artistas como eles podem ter uma vida equilibrada.”
De volta ao estúdio, enquanto a banda se prepara entre as músicas, Cyrus observa os fãs com os fones de ouvido e as perucas, impressionada, talvez, pelo fato de que eles não são mais crianças.
“Eu costumava pensar em Hannah como algo separado de mim”, diz Cyrus ao microfone cravejado de ouro. Ela via Hannah como uma fantasia — uma peruca que usava para brincar de faz de conta. Mas recentemente teve uma epifania. “Este especial”, diz Cyrus, “é a minha reapropriação da fusão entre Hannah e Miley.”
Ela continua esse pensamento no café, explicando como viver uma vida dupla na TV a ensinou a compartimentar os diferentes aspectos de sua identidade: se Miley Stewart representava a sacralidade da normalidade e Hannah Montana simbolizava magia e possibilidade, então, por muitos anos, Miley Cyrus — a garota real — representou liberdade e autenticidade. Mas ela também era um escudo.
“Acho que criei uma persona de Miley Cyrus para me proteger”, diz ela, “para que eu pudesse ter a Miley a portas fechadas. Mas, à medida que fui ficando mais velha, consegui integrar o que amo em todas elas em um único ser.”
No final de “Hannah Montana”, após revelar sua verdadeira identidade, Miley Stewart recusa um papel importante no cinema e decide, em vez disso, ir para a faculdade com Lilly. Ela escolhe a normalidade em vez da vida de uma superestrela. Mas para Cyrus, não é tão simples assim.
“Eu consigo tudo o que quero”, diz ela. “Meu relacionamento é discreto, meus negócios são um sucesso e eu consigo ter as pequenas coisas que as pessoas consideram garantidas, como acordar na minha própria cama e alimentar meus cachorros.”
Cyrus se inclina para a frente, seus olhos se arregalando por trás das lentes coloridas. “Mas também posso ser a Hannah de novo e ver as pessoas chorando porque acabaram de assistir ‘This Is the Life’ ao vivo. Eu amo ter construído minha vida dessa forma.”
Não é o melhor dos dois mundos, mas é algo completo. Levou 20 anos para ser desenvolvido, mas este é o novo hino de Cyrus: “Eu posso ter tudo.”
Produção: Alexey Galetskiy; Local: AGP West; Direção de arte: Milena Gorum; Figurino: Bradley Kenneth/A Frame Agency; Maquiagem: Janice Daoud/The Wall Group; Cabelo: Bobby Eliot/The Wall Group; Manicure: Miho Okawara; Look 1 (Capa e página de abertura): Look completo: Maison Margiela; Look 2 (Blusa azul): Look completo: Paco Rabanne Archive; Look 3 (Chapéu): Look completo: Valentino; Look 4 (Dourado): Look completo: Roberto Cavalli
Texto original: Variety.
No vídeo, Miley comenta sobre "See You Again": "Minha melhor amiga, Leslie, é realmente minha melhor amiga de Nashville. Ela era parte do meu time de líderes de torcida. Uma das principais razões de eu não querer ser escalada como Hannah Montana era porque não queria deixar a minha melhor amiga. Eu acho que ela usa isso em situações tipo 'Desculpe, todas as mesas estão ocupadas, não temos mais lugar', ela vai dizer 'Mas eu sou a melhor amiga, Leslie'. Ela provavelmente usa isso mais do que ela admite. Mas ela merece porque eu não sou uma melhor amiga fácil de se ter, principalmente quando era mais nova. Porque eu era maluca e ser minha melhor amiga era viver 24/7. Eu era do mesmo jeito que sou hoje. O tédio era um inimigo, eu precisava estar sempre fazendo algo, não importa o quê. Eu ainda sou assim, sempre fui assim. Eu não gosto de ficar entediada e raramente fico porque me mantenho ocupada. E isso quer dizer que minha melhor amiga precisa me acompanhar."
Ainda no vídeo, Miley respondeu se era time Jesse ou time Jake: "Hannah é mais Jake, Miley é mais Jesse. Eu gosto do tipo de vida poliamorosa que estamos construindo para Miley e Hannah. Muito, muito moderno, eu adoro."




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